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Esporão de calcâneo e joanete

Os culpados são os saltos?

Sapatos inadequados e obesidade são considerado fatores de risco no desenvolvimento do esporão de calcâneo. No entanto é preciso entender que, não só o esporão, mas a grande maioria das doenças e alterações são multifatoriais (tem mais de um fator que faz com que a doença aconteça). No caso do esporão ele é encontrado em uma época em que ainda não existia sapatos fechados e nem mesmo obesidade. Estamos falando de séculos anos atrás.

Em um outro artigo falamos um pouco sobre os esporões de calcâneo, o famoso osteófito (clique aqui para ler sobre). Como ainda não se sabe ao certo a causa dos esporões (sobrecarga biomecânica por excesso de tração, exercícios, obesidade, passar horas em pé ou até mesmo ser uma adaptação ao processo natural de envelhecimento) alguns pesquisadores se debruçaram sobre esqueletos antigos para observar se em uma população antiga de caçadores e coletores possuíam os famosos esporões.

A pesquisadora Elizabeth Weiss da Universidade de San Jose (1), nos Estados Unidos analisou 121 esqueletos adultos pré-históricos, datados entre os anos de 2180 à 250 anos BP* o que corresponderia aos anos 230 antes de cristo até 1700, pelo calendário cristão– antes do contato de Europeus, sendo 62 homens e 59 mulheres. Destes, apenas 117 possuíam a região dorsal e plantar preservadas para análise. O esporão de calcâneo pode ocorrer na região dorsal, na inserção do tendão de Aquiles, ou na região plantar.

A seta amarela em a. indica um esporão plantar e a seta branca com fundo transparente um esporão dorsal, imagem radiográfica. Em b ressonância magnética funcional. Adaptado de Draghi et al. 2017

 

 

Os esqueletos foram divididos em categorias entre 17-22 anos, 23-35 anos e maiores que 35 anos. Na região a população que vivia nessa época eram de coletores e caçadores, os homens eram normalmente enterrados com pontas de flechas de obsidianas, que indicavam sua função de caçadores e as mulheres com pilões, que indicavam sua função como preparadoras de comida.

Nos esqueletos analisados observou-se que 34,2% (40 indivíduos) apresentavam esporão de calcâneo, sendo que 29 apresentavam esporão de calcâneo dorsal e apenas 4 apresentavam esporão de calcâneo plantar, contrário do que é encontrado na população atualmente – prevalência maior de esporão plantar. Sugere-se que o esporão dorsal é mais prevalente em uma população fisicamente ativa (que corre e salta, por exemplo).

O esporão foi mais prevalente nos indivíduos que possuíam osteoartrite, especificamente o esporão dorsal, assim como na população atual. E ambos os tipos de esporão, plantar e dorsal, foram mais prevalentes na população mais velha (maiores de 35 anos). No entanto, a prevalência encontrada no estudo, sugere uma prevalência maior de esporão, 34% na população estudada, enquanto na população atual varia de 16-21%.

Esse estudo indicou que o esporão dorsal são, em parte, resultado de uma maior atividade física uma vez que a prevalência encontrada é maior do que a prevalência atual.

A escala BP ou Before Present é usada para indicar, na geologia, eventos que aconteceram no passado. É usado como medida de presente o dia de 1 de janeiro de 1950 para indicar o início da datação por radio carbono

 

E o hálux valgo?

Será também uma alteração da modernidade ou nossos antepassados já tinham?

O hálux valgo, popularmente conhecido como joanete, é um desvio lateral do dedão. Você pode nascer com ele dessa forma, congênito, mas a grande maioria dos casos é algo adquirido ao longo da vida de forma crônica (apesar de haver casos em que, após um trauma – como quebrar / fraturar o dedão e sem um tratamento adequado fica com o hálux valgo).

É uma condição incomum nas populações que normalmente andam descalças e existe de fato uma correlação positiva com o tipo de sapato usado, especificamente sapatos rígidos que impedem o movimento adequado do dedão. Isso pode ser exemplificado em estudos que observaram que, ao introduzir sapatos rígidos em populações indígenas ou na troca dos sapatos tradicionais de mulheres japonesas (normalmente feitos de tecidos, bem maleáveis), durante a segunda metade do século 20, por sapatos mais rígidos é observado um aumento da incidência do hálux valgo.

Um pesquisador chamado Mays (2) investigou esqueletos de dois sítios arqueológicos britânicos, um que data do final século 9 ao século 11 e outro do meio do século 13 ao século 16 depois de cristo. No primeiro sítio arqueológico foram escavados 95 corpos que indicavam uma diversidade maior de corpos e o segundo foram escavados 250 corpos com indícios de serem pertencentes a uma classe social mais elevada devido a forma de sepultamento. Foi possível determinar o sexo dos corpos avaliados através da análise da pelve e esqueleto e a idade aproximada através dos dentes.

Exemplo de sapato inglês dentre os anos 1300-1450. As pontas eram muitas vezes reforçadas com outros materiais como madeira para manter o formato. https://www.metmuseum.org/toah/works-of-art/29.158.914/

 

Apenas 47 corpos foram avaliados do primeiro sítio arqueológico, pois cumpriam os requisitos de inclusão do estudo (apenas adultos que continham o primeiro metatarso) e 192 do segundo sítio arqueológico foram incluídos no estudo. Apenas 14 indivíduos apresentaram hálux valgo, sendo que todos pertenciam ao segundo sítio arqueológico. A partir do século 12 houve um aumento dos sapatos de popularidade dos sapatos mais fechados, especialmente entre a classe social mais rica. Este estudo indicou que o uso de sapatos mais fechados, comuns entre as classes mais ricas, impediam a movimentação adequada dos dedos e favoreceu com que a deformidade de hálux valgo se instalasse.

Exemplo de hálux valgo encontrado no segundo sítio arqueológico. Adaptado de Mays 2005.

 

Outro estudo que avaliou 605 corpos de uma população da França (3) entre o século 5 e século 17 constatou que a presença de hálux valgo foi maior em homens entre os séculos 16 e 17. Nesse período era popular o uso de sapatos e botas com salto por homens de classe social mais elevada.

A formação do joanete é, como vimos, influenciada pelos sapatos que uma pessoa usa. No entanto é uma deformidade multifatorial, está também associado a um desbalanço muscular entre os músculos abdutores e adutores do hálux e possui ainda uma influência genética.

Existe uma alteração de uma morfológica no músculo extensor longo do hálux, a presença de um tendão acessório, que pode favorecer o desenvolvimento do hálux valgo. Essa alteração foi descrita pela primeira vez em 1871 por um pesquisador chamado MacAlister. Mais recentemente outros pesquisadores começaram a investigar a prevalência do tendão acessório que varia de 26-98% na população em geral. Porém há poucos estudos que avaliam a incidência de hálux valgo e a presença do tendão acessório do extensor longo do hálux.

Em um artigo de 2017 (4), pesquisadores gregos encontraram uma incidência de hálux valgo de 65% nos sujeitos que tinham o tendão acessório. Foram avaliados 98 pés femininos pós mortem e foi encontrada essa prevalência. No entanto, o exato mecanismo pelo qual o tendão acessório poderia favorecer o hálux valgo ainda é desconhecido. Há hipóteses de que o tendão acessório estaria, na verdade, prevenindo a ocorrência do hálux valgo.

Referências
MAFART, B. Hallux valgus in a historical French population: Paleopathological study of 605 first metatarsal bones. Joint Bone Spine, v. 74, n. 2, p. 166–170, mar. 2007.
MAYS, S. A. Paleopathological study of hallux valgus. American Journal of Physical Anthropology, v. 126, n. 2, p. 139–149, fev. 2005.
NATSIS, K. et al. The accessory tendon of extensor hallucis longus muscle and its correlation to hallux valgus deformity: a cadaveric study. Surgical and Radiologic Anatomy, v. 39, n. 12, p. 1343–1347, 10 dez. 2017.
WEISS, E. Calcaneal spurs: Examining etiology using prehistoric skeletal remains to understand present day heel pain. The Foot, v. 22, n. 3, p. 125–129, set. 2012.
25/03/2018

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